domingo, 15 de Novembro de 2009

Abraços Partidos, emoções completas

Novo filme de Almodóvar combina entretenimento, arte e amor ao cinema


Estréia no Brasil, no próximo dia 20, o novo filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar – com o atraso de sempre, já que entrou em cartaz na Europa e nos Estados Unidos em março deste ano. Los Abrazos Rotos (traduzido para o português como “Abraços Partidos”) é mais um drama almodovariano, desta vez com um triângulo amoroso no centro e uma narrativa dividida em dois tempos, com uma valorização extraordinária dos detalhes que compõem as imagens e o texto.


Abraços Partidos não pode ser comparado aos últimos filmes do cineasta, Volver – um filme delicado, sensível, capaz de valorizar as mulheres – e Má Educação, forte, marcante, injusto com o espectador despreparado. Deixando no passado suas tramas com temas mais difíceis, como mulheres enlouquecidas, encesto e estupro, Abraços Partidos gira em torno de relações humanas simples, como paixão, gratidão, ciúme e ausência. Pela quarta vez, o cineasta convoca a atriz Penélope Cruz, que, em uma atuação intensa, carismática e muitíssimo madura, faz valer o título de musa com o qual Almodóvar lhe presenteou.


O filme traz a história de Harry Caine (Lluís Homar), pseudônimo de um roteirista cego que, quando podia ver, era o diretor de cinema Mateo Blanco. Nessa época, ele se apaixonou por Lena (Penélope Cruz), uma jovem atriz, amante de um importante homem de negócios, Ernesto Martel (José Luis Gómez), que não permitiria que Lena o abandonasse facilmente. Fora à trama principal, há um pano de fundo relacionado ao cinema, uma vez que o papel de Mateo como diretor faz com que a boa parte do filme se desenvolva durante a filmagem do filme-dentro-do-filme “Chicas y maletas” (Garotas e Malas, em tradução livre).


Almodóvar cria um filme interessante e divertido, despertando, a cada momento - e nos momento certos - emoções das mais diversas no espectador. O diretor e roteirista se preocupa não só em contar a história, mas com como contá-la. Mais uma vez, trabalha com uma fotografia primorosa e uma trilha sonora planejada para mexer com os sentimentos do espectador. A sensação que temos é que o cineasta consegue transformar em imagem, som e palavras exatamente o que apareceu em sua cabeça no momento da concepção do filme.


A direção de fotografia é de Rodrigo Prieto, que assinou cenários de filmes como Brokeback Mountain e Babel. Em Abraços Partidos, Prieto deve ser visto como co-autor do roteiro, uma vez que a história contada perderia muito de sua expressão sem o trabalho precioso do artista. As cenas parecem, todas, material para um possível cartaz do filme, ressaltando-se os traços de pop art característicos do diretor. Alberto Iglésias é responsável pela música e consegue, por sua vez, conjugar o que se ouve com o que se vê com impressionante precisão.


Entre os pontos negativos do filme está o fato de que muitas das revelações que aparecem perto do final são bastante previsíveis. Além disso, o triângulo amoroso que seria o cerne do filme, em muitos momentos, parece um rocambolesco círculo de omissão, fatalidades e vingança. No mais, a escolha do tema e o desenvolvimento da trama parecem ter o objetivo de buscar um público além daquele fiel a Almodóvar: se o objetivo era esse, seguramente foi alcançado. O filme não é tão tenso ou complexo quanto costuma ser o gênero almodovariano. Abraços Partidos não é um filme feito apenas para os interessados em cinema artístico; quem vai pelo entretenimento tampouco se arrepende.

“Meu Caro Amigo” lota Teatro Apolo

A peça é aplaudida de pé pela multidão de fãs de Chico Buarque

Às 19h dessa sexta-feira, uma hora antes do espetáculo “Meu Caro Amigo” começar, a fila na porta do Apolo chegava quase ao começo da rua de mesmo nome. Todos os ingressos para a sexta e para o sábado já estavam vendidos. O segurança do Teatro – com quem eu conversava, casualmente, enquanto tentava encontrar um jeitinho de entrar, sabiamente, comentava: “É o poder do nome de Chico Buarque, minha filha”. “Verdade”, respondia, balançando a cabeça afirmativamente, de olho na movimentação dos produtores.

De fato, todos ali pareciam ser fãs de Chico Buarque e haver escolhido a peça (muitos, inclusive, passado no teatro no dia anterior para comprar os ingressos) porque a história tinha a ver com o compositor, e músicas dele embalariam o espetáculo. Às 20h, quando as cortinas deveriam se abrir, a produção da peça, vendo que ainda restavam algumas dúzias de pessoas fora do teatro com esperança de conseguir um ingresso de última hora, mandou que se colocassem à venda mais 36 ingressos, número de cadeiras que seguiam vazias. Venderam, ainda, outros mais, avisando que as pessoas teriam que ficar nas escadas, mas ninguém pareceu se incomodar.

Como fã deste poeta somente comparável a Fernando Pessoa em precisão do uso da língua portuguesa, achei bastante justo que um dos ingressos de última hora fosse meu. Entramos todos e, às 20h30, começou o espetáculo. A historia é simples: no palco, a personagem Norma (Kelzy Ecard), uma fã de Chico Buarque, abre o coração e declara seu amor ao artista. Ela se apresenta como professora de História do Brasil, e, enquanto narra sua história de paixão pelo compositor, em um monólogo, relembra os fatos mais importantes das décadas de 60 a 80.

O texto abre espaço para algumas músicas do cantor, interpretadas pela atriz ou na voz do próprio artista. A interpretação da atriz é despretensiosa e bem humorada. À sua direita, no palco, em meio a inúmeros LPs de Chico Buarque, uma cama, uma mesa com uma máquina de escrever – com a qual escrevia cartas para o ídolo –, está o pianista João Bittencourt, que acompanha a protagonista quando é sua vez de cantar. O cenário tem, ainda, um quadro negro e está cercado de cortinas, reproduzindo tanto o quarto de infância da personagem, quanto a sala de aula que ocupa já adulta.

A voz da cantora é tão agradável quanto sua performance no palco. Uma platéia tímida se animava quando começavam as canções do nosso idolatrado Chico, e alguns ousavam acompanhar a cantoria. Tudo parecia tão real, tão honesto, que me perguntava se não seria uma auto-biografia disfarçada. Se não era (e não devia ser, afinal, o próprio Chico já disse que pensar que tudo é auto-autobiográfico “enaltece a vida da pessoa, mas subestima a imaginação”), certamente estavam na platéia várias mulheres que sentiam, também, que as músicas haviam sido feitas para elas e que só o compositor as entendia.

Imagino que, para quem viveu os anos da ditadura militar no Brasil, o espetáculo toma uma dimensão ainda mais emocional. A obra do cantor, de fato, reflete essa era e marcou inúmeras vidas. Para quem conheceu Chico há menos anos do que a ditadura existiu, como eu, ainda assim, é um passeio temporal digno de uma aula de História. E, jovens ou quarentonas, todas ali concordamos quando Norma disse que se casaria com Chico imediatamente, se ele a quisesse. Mesmo sem nenhum ator “global” e sem ampla divulgação, o espetáculo foi um sucesso de público, coisa rara por aqui. Vale (mais) a pena para os fãs e para os que viveram essa época ou se identificam, de alguma maneira, com o roteiro.



quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

Lolita já era.

Como eu mencionei a tal crise da meia idade no post anterior, me peguei pensando nela esses dias. Cheguei à conclusão que, talvez, a crise seja muito mais dos tempos que de qualquer outra coisa.
Pensemos: os casais que, hoje, se separam depois de duradouros casamentos, são aqueles que se fizeram numa época totalmente diferente. E, se a época muda, as pessoas mudam junto com ela, e as relações em consequência dela.

Lá pelos anos 60-70, segundo consta, contava, por exemplo, que as mulheres fossem politizadas, ativistas, destemidas. Essas eram as mulheres "casáveis", as melhores. Os caras, por sua vez, tinham que ser líderes, intelectuais e, de preferência, fugitivos da polícia.

Hoje, claramente, tudo mudou. Pra começar, o que move o mundo não eh mais a busca pela liberdade... O motor desse mundo é qualquer outra coisa (que eu prefiro nem explorar, pra cada um resolver por si). Mas, eh preciso dizer que o que parece não mudar, no entanto, é a cabeca das esposas de antes: pensar, por exemplo, que o fato de ela ser tudo o que ela sempre foi manterá o casamento para sempre, como um dia prometido, eh um erro. As ambições do cara vão mudando, galera. Porque elas vêem isso em tantas outras coisas e colocam o relacionamento separado do resto? Aí, criam o mito da "menininha", da destruidora de lares, que ROUBA o maridão dela. Na verdade, na maioria dos casos, num eh roubo coisíssima nenhuma: o cara tava na prateleira, pedindo pra ser tomado, e eh, por alguém que se interesse. Essa interessada, inclusive, hoje em dia, está muuito distante do perfil "interesseira" que as esposas associam a ela. Como também não eh mais o perfil sexo-estampado-na-cara, ou quando-abre-a-boca-o-povo-corre, que está motivando finais de relacionamentos. As que estão levando os maridões são as mais espertas, desenroladíssimas, articuladas, nem necessariamente as mais bonitas (mas, provavelmente, as bem ajeitadas) e, o principal, as mais simples. "Simples", porque não são chatas, não tem as coisinhas cri-cri da mulher do cara, que fica em casa parece que esperando pra encher o saco dele com o que ele fez ou deixou de fazer. Nos vinte-e-poucos, trinta-e-poucos, importam muito pouco esses detalhes: importa o tempo com o cara ser legal, o cara saber falar contigo, e escutar tuas idéias. O coroa faz isso muito bem (até melhor que o garotão). Ótimo. A novinha num vai se preocupar com a hora que ele chegou ou com se ele tá bebendo muito e falando merda.

Aí, vc quer se ajustar aos novos tempos igual ao cara? Mude. Não junto com o cara, porque, bem, isso seria triste. Mude na paralela do cara. Mude pra você, pra as coisas serem mais simples e, portanto, menos chatas. Aliás, eu espero começar a ver o fenômeno das coroas que procuram os rapazes mais jovens! Por que não? Chegar em casa e ver aquele lanzudão esparramado, vendo jogo de futebol NÃO PODE ser legal. Vamos nos despindo de certos preconceitos, por favor, e abrindo os olhos pro que a gente quer - e merece. Manter relação porque ela já está pronta pode ser fatal. Os caras, evoluídissimos nesse ponto, sabem que estar com alguém eh uma escolha diária, enquanto a mulherada segue achando que só precisou decidir no dia do "sim".

Eu só me lembro muitíssimo de Dolores Duran, em "Fim de caso", traduzindo precisamente o medo feminino do fim de relacionamentos, quando ela diz: "Tenho pensado, e Deus permita que eu esteja errada, mas eu estou, ah, eu estou desconfiada que o nosso caso está na hora de acabar". Aí já acabou faz eh tempo. E Deus num tem mais nada a ver com isso, Ele ficou alí na hora da igreja, qnd vc disse "sim". Aliás, quando um padre me perguntar se eu aceito meu namorado "como legítimo esposo, para amar e adorar pelo resto da minha vida", eu pretendo dizer um "sim" bem sonoro, e esclarer, baixinho, pra ele, que "até amanhã, no mínimo, tá seguro". Daí pra frente, é comigo e com ele. O dia seguinte pode, quem sabe, trazer outra resposta pra essa mesma pergunta. Tanto minha como dele e, pra mim, eh bem assim que deve ser pra garantir muuuito mais que amor: dias tranquilos.

Aí eh a bronca: a mulher em casa, dizendo "mas vc prometeu ficar comigo na alegria e na tristeza" e enchendo o saco na saúde e na doença, e toda uma geração novinha com pensamentos tão mais leves e confortáveis... e povo continua achando que eh o fetiche da Lolita que leva os caras. Eu quase me ofendo! =]


Rafa